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10 mentiras sobre animais em que você ainda acredita

Sete vidas, peixinho de três segundos, avestruz com a cabeça na terra, touro e vermelho, cachorro em preto e branco, lêmingues da Disney: de onde saiu cada mito — e quem foi lá testar.

7 de outubro de 2026 · 12 min de leitura · com vídeo

Prefere assistir? São uns 11 minutos.

O gato que sempre cai de pé, o peixinho que esquece tudo em três segundos, o avestruz que enfia a cabeça na terra. Ninguém lembra quem contou primeiro, e quase ninguém foi conferir.

Algumas dessas histórias têm dois mil anos. Outra virou indústria de cápsula. E uma ganhou um Oscar com uma cena armada. Aqui estão as dez, cada uma com quem foi lá e testou.

A resposta curta

  • Peixinho dourado: a memória dele dura dias, semanas e até meses — não três segundos.
  • Avestruz: não enterra a cabeça. Abaixa a cabeça no ninho, que é um buraco raso no chão, para virar os ovos; com perigo e sem fuga, deita o pescoço rente ao chão.
  • Touro e vermelho: o touro enxerga pouca diferença entre vermelho e verde. O que provoca o ataque é o movimento da capa.
  • Cachorro comendo grama: na maioria das vezes, não é doença. Num levantamento com 1.571 cachorros que comem planta, menos de um em cada dez parecia doente antes.
  • Gato e pepino: o problema é a surpresa de encontrar um objeto que não estava ali, não o pepino.
  • Um ano de cachorro = sete anos de gente: a conta não é reta. Um labrador de um ano já equivale a um adulto de uns 30.
  • Tubarão não pega câncer: pega. Há dezenas de tumores registrados em tubarões e raias, e a cápsula de cartilagem não prolongou a vida de pacientes num teste grande.
  • Cachorro vê em preto e branco: vê cores, só que menos — principalmente azul e amarelo.
  • Lêmingues se jogam do penhasco: não se jogam. A cena famosa foi armada para um documentário da Disney de 1958.
  • Sete vidas: gato cai de pé com frequência, mas não é imortal. Os números famosos de gatos que sobreviveram a quedas deixam de fora os que morreram na hora.

10. O peixinho dourado tem memória de três segundos?

É a desculpa perfeita para o aquário pequeno: se ele esquece tudo, cada volta é uma viagem nova. Em 2008, um estudante australiano de 15 anos, Rory Stokes, de uma escola de Adelaide, resolveu testar. Durante três semanas, toda vez que ia dar comida, ele punha um marcador na água, esperava 30 segundos e só então espalhava a ração em volta dele. No começo, os peixes levavam mais de um minuto para chegar ao marcador; no fim das três semanas, menos de cinco segundos.

O peixinho dourado diante do rosto de uma menina, do outro lado do aquário
O peixinho dourado diante do rosto de uma menina, do outro lado do aquário

Depois, Rory tirou o marcador por seis dias. Quando o pôs de novo na água, os peixes chegaram em 4,4 segundos: lembravam a associação entre o marcador e a comida. E ele tinha um palpite sobre a origem do mito: a história existe para a gente não se sentir culpado de manter peixe em aquário pequeno.

A ciência já tinha ido além. Na Universidade de Plymouth, na Inglaterra, oito peixinhos dourados aprenderam a apertar uma alavanca que só liberava comida numa janela de uma hora a cada 24, sempre no mesmo horário. O padrão das apertadas sugeriu que eles antecipavam a hora da comida — e o hábito continuou por alguns dias mesmo quando a comida parou. Em outro estudo, com o peixe-arco-íris, a lembrança de uma rota de fuga durou 11 meses.

Um aquário redondo e pequeno sobre um banquinho, num cômodo claro
Um aquário redondo e pequeno sobre um banquinho, num cômodo claro

Se você tivesse um peixinho, que nome daria? Se já tem, conta o nome dele nos comentários do vídeo.

Fonte a reportagem da agência AAP sobre Rory Stokes, publicada no news.com.au em 18/02/2008; P. Gee, D. Stephenson e D. E. Wright, Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 1994; C. Brown, Animal Cognition, 2001.

9. O avestruz enfia a cabeça na terra quando tem medo?

O desenho animado mostrou isso mil vezes. Na vida real, avestruz não faz isso — e, se fizesse, com a cabeça enterrada nem conseguiria respirar.

A história é antiquíssima. Por volta do ano 77, o romano Plínio, o Velho, escreveu na História Natural que esse bicho enorme, que os antigos chamavam de struthocamelus — algo como "pardal-camelo" —, era tão tolo que, ao enfiar a cabeça e o pescoço num arbusto, achava que o corpo inteiro tinha sumido. Repare: arbusto, não areia. A areia foi parar na história depois.

Ovos de avestruz sobre a terra, à luz do dia
Ovos de avestruz sobre a terra, à luz do dia

O que acontece de verdade é outra coisa. O ninho do avestruz é uma depressão rasa cavada no chão, e várias vezes por dia a ave abaixa a cabeça no buraco para virar os ovos com o bico. De longe, parece que a cabeça sumiu. E quando sente perigo e não dá para fugir, o avestruz se joga no chão e fica imóvel, com a cabeça e o pescoço rentes à terra, para não ser visto. Quando dá para fugir, ele corre: até 70 km/h em arrancadas curtas.

Fonte Plínio, o Velho, História Natural, livro 10, cap. 1 (tradução de Bostock e Riley, Perseus Digital Library); San Diego Zoo; Cleveland Zoo Society, 2020.

8. O touro fica bravo com vermelho?

Na tourada, a capa vermelha balança e o touro parte para cima — parece prova. Só que bois, vacas e touros têm só dois tipos de célula de cor no olho, como uma pessoa daltônica: vermelho e verde, para eles, quase não se distinguem.

O olho de um bovino, de perto
O olho de um bovino, de perto

Em 2007, o programa MythBusters — no Brasil, Caçadores de Mitos — levou um touro para uma arena e testou. Três bandeiras paradas, vermelha, branca e azul: ele atacou as três com a mesma fúria. Três bonecos vestidos dessas cores: atacou o branco primeiro, o azul depois e o vermelho por último. Por fim, um dos apresentadores, Tory Belleci, ficou parado na arena com roupa vermelha, enquanto dois vaqueiros se mexiam. O touro foi atrás dos vaqueiros e ignorou o homem de vermelho. O que provoca o touro é o movimento.

E por que a capa é vermelha, então? A explicação mais contada é que ela disfarça o sangue. Documento disso, não achamos.

Fonte G. H. Jacobs, J. F. Deegan e J. Neitz, Visual Neuroscience, 1998; MythBusters, temporada de 2007, episódio "Red Rag to a Bull"; Live Science, 2012.

7. Cachorro come grama porque está passando mal?

O cachorro para no gramado, começa a pastar, e o dono já espera o pior no tapete. Em 2008, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis foram tirar a dúvida com donos de cachorros que comem planta: de 3.340 questionários, 1.571 entraram na conta.

Folhas de capim contra o céu
Folhas de capim contra o céu

A grama foi a planta comida com mais frequência por 79% dos cachorros. Só 9% costumavam parecer doentes antes de comer planta, e só 22% costumavam vomitar depois. Os mais novos comiam com mais frequência — e eram justamente os que menos mostravam sinal de doença. A conclusão dos pesquisadores: comer planta é comportamento normal de cachorro. Vários donos ainda contaram que o cachorro parece escolher o capim, o tipo e a parte.

Por que, então? A explicação mais citada, ainda uma hipótese, é herança: lobos também comem grama de propósito, e já em 1944 o biólogo Adolph Murie viu capim enrolado em vermes nas fezes de lobos — a planta ajudaria a empurrar os parasitas para fora.

Fonte K. L. C. Sueda, B. L. Hart e K. D. Cliff, Applied Animal Behaviour Science, 2008.

6. Gato tem medo de pepino?

Em 2015, a internet descobriu os vídeos: um pepino deixado atrás do gato enquanto ele come, e o gato dá um pulo. A explicação de quem estuda comportamento animal é outra: o problema é a surpresa. O gato está comendo, de costas, no lugar onde se sente seguro; quando se vira e encontra um objeto que não estava ali, o corpo reage antes de pensar. Antes do pepino, já em 2010, havia vídeo de gato levando susto com banana.

Pepinos inteiros num prato branco
Pepinos inteiros num prato branco

À National Geographic, a behaviorista Jill Goldman explicou que o pepino dispara o susto porque o gato não espera aquilo no chão — e avisou que causar estresse num animal não é bom, ainda mais para dar risada. O pepino é para a salada.

Fonte National Geographic, 17/11/2015; Know Your Meme.

5. Um ano de cachorro vale sete anos de gente?

A multiplicação por sete é a conta mais famosa — e não se sabe ao certo de onde ela saiu. Em 2020, pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego compararam as marcas químicas que a idade deixa no DNA (a metilação) de 104 labradores com as de 320 pessoas. O cachorro envelhece muito rápido no começo e devagar depois: pela fórmula do estudo, um labrador de 1 ano equivale a um humano de uns 31; de 4 anos, a uns 53; de 10, a uns 68.

Um labrador amarelo num jardim
Um labrador amarelo num jardim

A conta do sete também não fecha na prática: uma cadela de porte pequeno, com nove meses, já pode ter filhote (nas pequenas, o primeiro cio costuma vir por volta dos 6 ou 7 meses) — pela regra do sete, seria uma mãe de cinco anos de idade. Os próprios autores avisam que a fórmula foi feita com labradores; em outras raças, os números podem mudar.

Fonte T. Wang e colegas (laboratório de Trey Ideker), Cell Systems, 2020; American Kennel Club, sobre o cio.

4. Tubarão não pega câncer?

Em 1992, um livro americano com esse título — Sharks Don't Get Cancer — fez sucesso dizendo que a cartilagem protegia o tubarão do câncer e que, em cápsula, protegeria as pessoas também. A tese se apoiava num experimento de laboratório de 1983 em que extrato de cartilagem freou o crescimento de vasos de tumores em coelhos, e ganhou o país num programa famoso da TV americana, o 60 Minutes, em 1993. Virou negócio: cartilagem de tubarão em pó, vendida em cápsula.

Mão de luva segurando uma placa de cultura de laboratório
Mão de luva segurando uma placa de cultura de laboratório

Só que tubarão pega câncer, sim. Em 2004, pesquisadores juntaram 42 casos de tumor em tubarões, raias e parentes, em pelo menos 21 espécies. E num teste apoiado pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, que acompanhou 379 pacientes com câncer de pulmão, todos com quimioterapia e radioterapia, quem tomou o extrato de cartilagem não viveu mais do que quem tomou placebo: 14,4 meses contra 15,6, diferença sem significado estatístico. O detalhe mais irônico: o próprio livro admitia que tubarão tem câncer — só dizia, sem razão, que era raro.

Fonte G. K. Ostrander e colegas, Cancer Research, 2004; C. Lu e colegas, Journal of the National Cancer Institute, 2010; A. Lee e R. Langer, Science, 1983.

3. Cachorro vê em preto e branco?

O livro que costuma levar a culpa é um manual americano de adestramento dos anos 1930, de Will Judy. Os cientistas já vinham testando desde o laboratório de Pavlov, no começo do século 20, com resultados que batiam cabeça — em 1969, uma revisão de 16 estudos achou cerca de metade dizendo que o cachorro via alguma cor.

Foto antiga, em preto e branco, de uma moça com o cachorro numa encosta
Foto antiga, em preto e branco, de uma moça com o cachorro numa encosta

O teste que resolveu saiu em 1989. Jay Neitz e colegas puseram três cães diante de três painéis de luz, dois iguais e um diferente; a cada vez que o cão tocava o diferente com o focinho, ganhava um petisco. Resultado: o cachorro vê cores, só que menos. Ele tem dois tipos de célula de cor no olho, não três como a gente. O mundo dele é feito de azul e amarelo; vermelho e verde ele confunde. Por isso a bolinha vermelha some na grama — e muitas vezes ele acha pelo cheiro. Quer que ele veja? Prefira azul ou amarelo.

Fonte J. Neitz, T. Geist e G. H. Jacobs, Visual Neuroscience, 1989; I. P. Pavlov, Conditioned Reflexes, aula 8; American Kennel Club.

2. Os lêmingues se jogam do penhasco juntos?

O lêmingue é um roedor pequeno do Ártico, do tamanho de um hamster. A cena famosa — um bando correndo para o abismo e caindo na água — está em White Wilderness, documentário da Disney de 1958 que ganhou o Oscar. Só que a cena foi armada.

O rio Bow em Canmore, na província de Alberta, no Canadá
O rio Bow em Canmore, na província de Alberta, no Canadá

Em 1982, o programa the fifth estate, da TV pública canadense CBC, mostrou que ela foi filmada em Alberta — uma província sem mar —, num rio, com lêmingues comprados de crianças inuítes. Os bichos foram postos numa plataforma giratória coberta de neve e jogados no rio. No filme, o narrador fala em mar.

O que existe de verdade é outra coisa: a população de lêmingues explode e despenca em ciclos de uns quatro anos, e nos anos de explosão eles se espalham, atravessam rios a nado, e alguns se afogam. Suicídio em massa, não. (Atenção a quem for pesquisar: um artigo muito citado do governo do Alasca diz que a investigação foi em 1983 — a própria CBC registra 1982.)

Fonte CBC, the fifth estate, "Cruel Camera", 1982 (página arquivada); Alaska Department of Fish and Game, 2003; O. Gilg, I. Hanski e B. Sittler, Science, 2003.

1. Gato tem sete vidas?

Em inglês, são nove — o provérbio já aparece em 1546. A parte verdadeira: gato costuma cair de pé. Em 1894, o fisiologista francês Étienne-Jules Marey filmou um gato caindo, a 60 imagens por segundo, e a dúvida de como ele virava no ar sem ter onde se apoiar ocupou os cientistas por décadas. Na explicação simples, ele gira primeiro a metade da frente do corpo e depois a de trás.

A cronofotografia original de Marey, 1894: um gato caindo, visto de lado
A cronofotografia original de Marey, 1894: um gato caindo, visto de lado

Agora, as vidas. Entre junho e novembro de 1984, um hospital veterinário de Nova York atendeu 132 gatos que caíram de prédio. Entre eles estava a Sabrina, que caiu do 32º andar sobre o concreto e foi para casa dois dias depois, com um dente lascado e uma lesão leve no pulmão. Dos gatos que foram tratados, nove em cada dez sobreviveram — e os que caíram de mais alto se saíram melhor que os de andares médios.

Parecia imortalidade. Só que tem um detalhe: o gato que morria na hora, em geral, nem ia para o hospital — ficava fora da conta. E 17 dos 132 foram sacrificados a pedido dos donos, a maioria por não poder pagar o tratamento. Gato tem uma vida só. Tela na janela.

Fonte É.-J. Marey, Comptes rendus de l'Académie des sciences, t. 119, 1894, p. 714–717 (e Nature, 1894); W. O. Whitney e C. J. Mehlhaff, Journal of the American Veterinary Medical Association, 1987; The New York Times, 22/08/1989.

As ilustrações deste artigo foram feitas com inteligência artificial para o vídeo do canal.

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